No fundo, este post estava pensado desde a passada semana,
concretamente desde a derrota em hóquei com o Porto.
Preferi, contudo, não escrever a quente: porque as
derrotas não são boas conselheiras e porque não queria ser acusado de “abutre”,
uma palavra tão cara a alguns amigos da blogosfera benfiquista.
Prefiro, pois, fazê-lo hoje, dia em que registamos duas
vitórias contra a lagartagem, que à primeira vista poderiam ofuscar uma derrota
caseira com o CAB.
Em circunstâncias normais, seria pois um belo sábado para
as modalidades.
E no entanto…
Definitivamente há qualquer coisa que não está bem nas
modalidades: de uma forma geral tem-se acentuado nos últimos tempos uma
tendência que demonstra que a qualidade de jogo mas também a garra e a vontade
de vencer parecem proporcionalmente inversas ao investimento efectuado.
Olhe-se algo friamente (se for possível) para as últimas
exibições das nossas equipas: falta alma, cultura de clube, de vitória.
A sensação que temos muitas das vezes é que usamos e
abusamos do caminho no fio da navalha: no basquete, no futsal, no andebol e
agora também no hóquei.
As exibições de hoje no andebol e no hóquei foram, aliás,
sintomáticas.
Já em relação ao vólei, no fundo, estamos todos de credo
na boca à espera do play-off, receando ver um filme já visto vezes demais.
Tomemos como exemplo a derrota caseira do hóquei ante o
Porto: justíssima, antes de mais, mas também emblemática.
De uma certa forma de estar no clube, de encarar a
competição e de jogar contra um rival directo, para mais com o peso do Porto.
Quando demos por nós, já eles ganhavam por 2-0; cada vez
que o Porto metia o stick à bola, fazia-o com convicção: para ganhar a bola
dividida, para ganhar o lance, sabendo que assim a vitória estaria mais
próxima.
Seriedade profissional, concentração competitiva
permanente, capacidade de não falhar nos momento decisivos: lamento, mas só o
Porto os demonstrou e os resultados ficaram à vista.
Se nos agarrarmos aos erros de arbitragem, é sinal de que
nada percebemos e não sairemos disto.
Foi por isso, um jogo emblemático de um determinado estilo
de vida, de um certo glamour, se quisermos, que reina nalgumas
modalidades do Benfica: de jogadores que andam pelos corredores da Luz, almoçam
no Gonçalves, são apaparicados, conversam com os sócios, levam umas palmadas
nas costas e ficamos todos felizes.
O nacional porreirismo em versão benfiquista, se
quisermos.
Também a Benfica TV terá a sua quota-parte (embora
completamente involuntária) de responsabilidades: não sei até que ponto não
haverá rapaziada demasiado endeusada, sobretudo quando tão pouco ganhou.
Ao invés de entrevistas e reportagens bem intencionadas
que consecutivamente nos dão a conhecer grupos de excelentes rapazes (quem o
duvida?), preferimos vitórias claras, exibições seguras que nos coloquem a
salvo de humilhações como a de sábado passado na Luz.
Falta, portanto um longo caminho a percorrer: uma forte
cultura de clube, consentânea com a tradição e a responsabilidade histórica do
Benfica e que se traduz numa permanente exigência de vitórias e numa
concentração competitiva adequada a equipas altamente profissionalizadas a quem
nada falta.
Acresce um factor que pode e deve ser determinante: os
tempos que correm não são propriamente de abundância, pelo que seria de bom tom
que todos entendessem definitivamente que a sobrevivência das modalidades pelo
menos na vertente mais alta da competição, poderá e deverá estar ligada ao
desempenho desportivo.
Meus senhores, podem ainda não se ter apercebido mas a
festa está a acabar!
RC