A estória conta-se numa dúzia de linhas: corria a época de
1978/1979, o Sporting defrontava o Famalicão em Alvalade e Jordão regressava de
uma longa ausência após lesão causada por choque com o nosso defesa-esquerdo
Alberto.
Na equipa do Minho, jogava um tal Zé Eduardo: dois varapaus
no lugar das pernas e dois tijolos onde deveriam estar dois pés.
Zé Eduardo batia forte, batia bem: basicamente em tudo o que
mexia.
Naquela noite a fava tocou a Rui Jordão que viu o
voluntarioso jogador do Famalicão confundir o perónio da sua perna esquerda e
os ligamentos da tibiotársica com a bola.
Não satisfeito com a proeza, insultou-o: “Levanta-te meu
maricas, meu paneleiro”.
Jordão foi directo para o hospital e reza a história que Zé
Eduardo teve de se refugiar da ira de jogadores, treinador e adeptos do Sporting.
À saída choviam pedras e o Famalicão saiu de Alvalade sob protecção do Corpo de
Intervenção.
Poucos meses depois o valente e dotado Zé Eduardo foi contratado pelo
Sporting.
Pois bem, só aparentemente a ida de Fábio Coentrão para o
clube do Campo Grande não está relacionada com o dignificante episódio do Zé
Eduardo dos croquetes.
Zé Eduardo em 1979 e Coentrão quase quarenta anos depois têm
a uni-los uma matriz: a de um clube sem valores, sem memória, sem respeito pela
sua própria história ou por qualquer réstia de dignidade que por ali ainda possa
subsistir.
Assim como há 40 anos contratou um caceteiro que meses antes, quase foi linchado à saída da porta 10A, a agremiação do Campo Grande não hesita agora em contratar um
jogador que afirmou repetidamente que em “Portugal só voltaria a jogar no Benfica”
e que ainda há pouco mais de ano, no auge da luta pelo campeonato 2015-2016,
disse algo como “estou muito grato a Jesus mas Benfica sempre!”
Um qualquer Coentrão desta vida não entraria nunca no
Benfica, como não entrou há 40 anos José Maria Pedroto, como não regressou o
traidor Paulo Sousa, como não entrou um traste chamado Octávio Machado apesar
dos esforços de Jorge Jesus.
Já agora, como acabou por não entrar bem recentemente um
nojo de homem armado em jogador de vólei que alguém certamente distraído quis
trazer para o Benfica.
É, pois, isto que nos separa para quem ainda o não entendeu
e queira tudo resumir a uma simples questão de rivalidade.
Mais do que todos os
nossos títulos, todas as nossas vitórias, a nossa grandeza e história
inigualáveis, a nossa dimensão de Clube verdadeiramente universal e popular,
separa-nos o respeito que nós benfiquistas temos pela nossa história, pelos
nossos valores, pela nossa memória colectiva, pela ideia inicial.
É isto o Benfica, é assim o Benfica.
E por isso nos envaidece.
RC






